Por Edite Neves *
Durante minha trajetória profissional pude perceber o quanto os jogos e as brincadeiras influenciam na aprendizagem dos educandos, pois o jogo está presente na humanidade desde as antigas civilizações, perpassando os diferentes contextos sociais. Por esse motivo Huizinga (2005) considera o jogo como um ato cultural em uma perspectiva histórica, pois é possível encontrar o jogo na cultura como um elemento dado, porque já estava presente mesmo antes dela, acompanhando-a e marcando-a desde as mais remotas origens até o momento atual.
Com o passar dos tempos os jogos evoluíram, mas ainda se mostram presentes e importantes no auxílio do desenvolvimento do ser humano, principalmente quando nos referimos às crianças em idade pré-escolar, as quais praticam atividades lúdicas (jogos, brincadeira e brinquedos) que englobam o esforço físico/mental para mobilizar as disposições cognitivas, sociais e emocionais. Estas disposições são de alto valor significativo para a formação da personalidade da criança. Outro aspecto importante na prática de atividades lúdicas refere-se à sociabilidade, pois a criança ao praticar jogos coletivos tem que organizar as ações.
A brincadeira e o brinquedo foram introduzidos na escola de Educação Infantil por Froebel com o objetivo de estimular o desenvolvimento da criança e possibilitar a socialização entre os alunos, quando o brincar fosse em grupo. As idéias de Froebel revolucionaram a educação, porque ele teve a inspiração a partir do seu amor pelas crianças e pela natureza, e por isso abriu o primeiro jardim de infância depois de trabalhar com Pestalozzi. Após esse período dedicou–se à formação de professores e à elaboração de métodos para a instalação do jardim de infância.
Em 1837 surgiu o kindergarden (Jardim de Infância), neste local as crianças eram consideradas como plantinhas do jardim, cujo jardineiro seria o professor que iria cuidar dela para que tivesse um bom desenvolvimento. Froebel (1998) foi o precursor na utilização do brinquedo como material didático e atividades como desenhos que envolvem ritmo e movimento que auxiliam a criança conhecer primeiramente os membros de seu próprio corpo, para em seguida identificar os movimentos das partes do corpo. A atividade e a reflexão são os instrumentos de mediação desse processo não diretivo, o que garante que os conhecimentos brotem, sejam descobertos pela criança de forma mais natural possível.
É neste fator que OLIVEIRA (2000) relata Vygotsky diverge de Froebel, pois para ele a infância e seu desenvolvimento estão fortemente conectados com a educação e com a sociedade na qual a criança está inserida, e que não existe uma infância universal, única e natural, contudo o desenvolvimento é passível de mudanças históricas. Por esse fator Vygotsky, Luria e Leontiev (1998) explicam que desde o nascimento da criança o seu aprendizado está relacionado ao seu desenvolvimento, o qual irá ocorrer por processos internos que necessitam estar em contato com outro indivíduo e com um ambiente cultural, ou seja, para o desenvolvimento ocorrer são necessários situações propícias para o aprendizado.
No entanto para Piaget o sujeito nasce com determinada estrutura que lhe possibilita adaptar-se ao meio, ou agir em relação aos objetos. Essa adaptação realiza-se a partir de um fator denominado equilibração, que compreende os mecanismos de acomodação e assimilação correspondente, de forma análoga e complementar, ás condutas imitativas e lúdicas
Esses estudiosos enfatizam que o ser humano cresce num ambiente social e a interação com outras pessoas são essenciais ao seu desenvolvimento. Eles dizem ainda que “todas as funções no desenvolvimento da criança aparecem duas vezes: primeiro, no nível social e depois no nível individual; primeiro entre pessoas (interpsicológica), e, depois, no interior da criança (intrapsicológica)”. (Vygotsky, Luria e Leontiev, 1988, p. 64).
Devido a este conceito é possível perceber porque é dada suma importância a internalização como processo, entretanto esta função está intimamente atrelada à atividade social externa, para que ela se torne em uma atividade individual interna, ou seja, as interações sociais são imprescindíveis tanto para o desenvolvimento como para as transformações dos aspectos sociais, morais e cognitivos da criança. Entendo que a brincadeira tem como função inserir regras que farão parte do cotidiano escolar e fora dele, e despertar o raciocínio lógico e a linguagem. É uma maneira da criança se comunicar porque está relacionando-se com o outro.
Quando a criança está brincando ela consegue recriar a sua realidade principalmente quando a brincadeira for o “faz de conta”, porque ele possibilita a integração e adequação dos desejos, sonhos e fantasias à realidade, e ainda consegue integrar o passado ao presente, através das lembranças que carrega consigo, contribuindo assim para a construção de sua memória.
Piaget (1975) diz que a imaginação é uma fonte da representação, à qual fornece essencialmente, seus “significantes” imaginados. No terreno do jogo e da imitação, pode-se acompanhar de maneira contínua a passagem da assimilação e da acomodação sensório-motora. Esta fase pode ser associada à fase pré-verbal do desenvolvimento, onde a ação da criança no mundo é feita por meio de sensações e movimentos, sem mediação de representações simbólicas.
Para Piaget (1975, p. 117), “... os esquemas momentaneamente inutilizados não poderiam desaparecer sem mais nem menos, ameaçados de atrofia por falta de uso, mas vão exercitar-se por si mesmos sem outra finalidade que o prazer funcional, ligado ao exercício”. Ou seja, os jogos podem ter duas funções seja de consolidar os esquemas formados ou de dar prazer ou equilíbrio emocional à criança. Na teoria de Piaget existe o jogo de exercício que imita o que já foi vivido utilizando a ação (esquema sensório-motor), enquanto que no jogo de imaginação repete o que foi vivido usando a representação (esquema simbólico).
O brincar na escola é um meio real de aprendizagem que possibilita desenvolver os aspectos cognitivos, afetivos, físicos, motores, morais, lingüísticos e sociais. Isto ocorre a partir da construção que a criança consegue fazer em interação com o meio físico e social.
Toda escola de educação infantil deve providenciar um espaço para o brincar e materiais pedagógicos que serão utilizados como instrumentos para o desenvolvimento da criança.
O educador afirmar que o brincar é uma ação que envolve múltiplas aprendizagens, pois a brincadeira não é algo dado na vida do ser humano, ou seja, aprende-se a brincar desde cedo nas relações que os sujeitos estabelecem com os outros e com a cultura. Pois, o brincar não apenas requer muitas aprendizagens, mas constitui um espaço de aprendizagem. O brincar também supõe um aprendizado de forma particular de relação com o mundo ainda que marcada pelo distanciamento da realidade com o da vida comum, mesmo que sendo ela o referencial.
Quando temos a possibilidade de observar situações de brincadeiras coletivas organizadas por crianças, podemos aprender muito sobre as crianças e os processos de desenvolvimento e aprendizagem envolvidos em suas ações.
A liberdade no brincar se configura no inverter a ordem, virar o mundo de ponta-cabeça, fazer o que parece impossível transitar em diferentes tempos. A noção de liberdade está associada, entretanto, não à ausência de regras, mas à criação de formas de expressões e da ação do brincar.
Hoje é possível encontrar diversas discussões sobre a função do jogo nas instituições pré-escolares, seja quanto à natureza do jogo infantil como um ato de expressão livre, ou fim em si mesmo ou ainda como um instrumento metodológico capaz de conhecer os interesses e necessidades da criança.
Quando o educador utiliza a atividade lúdica como recurso didático ele deve ter claro os objetivos que deseja atingir com as atividades utilizadas. Essas atividades lúdicas devem ser articuladas de forma integrada, ou seja, considerar a criança como um ser integral.
Concluimos que no brincar que as crianças vão se constituindo como agentes de sua experiência social organizando com autonomia suas ações e interações, elaborando planos e formas de ações conjuntas, criando regras de convivência social e de participação nas brincadeiras. Pois o brincar é uma atividade humana significativa, por meio da qual os sujeitos se compreendem como sujeitos culturais e humanos, membros de um grupo social e que como tal, constitui um direito a ser assegurado na vida do homem.
O brincar com o outro, portanto é uma experiência de cultura e um complexo processo interativo e reflexivo que envolve a construção de habilidade, conhecimento e valores sobre o mundo.
*Artigo escrito para a finalização da disciplina Práticas Teatrais no Ensino de Teatro-Educação, da professora Ingrind Koudela